Ponto de Vista: O tarifaço americano e as lições para a política comercial brasileira
A principal lição deste episódio é que o tarifaço americano não representa apenas um problema comercial. Ele revela que o mundo mudou e que o Brasil ainda negocia, em muitos aspectos, como se estivéssemos na geopolítica de duas décadas atrás.
Durante muito tempo, nossa diplomacia esteve estruturada em negociações multilaterais, processos longos e organismos internacionais. Hoje, porém, as grandes negociações comerciais são muito mais diretas, rápidas e fortemente influenciadas por interesses econômicos, segurança nacional, tecnologia e geopolítica.
Na minha avaliação, o Brasil demorou para perceber a dimensão do problema. Não apresentou uma estratégia clara de negociação desde o início, retardou a busca de um entendimento e, em diversos momentos, prevaleceram declarações públicas que aumentaram a tensão política quando o foco deveria estar na construção de soluções. Negociação internacional exige firmeza, mas também pragmatismo. Quanto maior o conflito público, menor tende a ser o espaço para concessões privadas.
Os resultados falam por si. O Brasil terminou entre os países submetidos às tarifas mais elevadas, enquanto diversos parceiros conseguiram preservar melhores condições de acesso ao mercado americano. Independentemente das razões, esse resultado precisa servir de aprendizado.
O mundo negocia de forma diferente. As grandes economias deixaram de conduzir suas negociações apenas pelos canais diplomáticos tradicionais. Hoje, governos se cercam de empresários, especialistas setoriais, economistas e executivos das cadeias produtivas que conhecem profundamente os mercados, os gargalos e os impactos concretos de cada decisão.
A diplomacia continua sendo fundamental, mas precisa atuar de forma integrada ao setor produtivo. Quem produz, investe, exporta e gera empregos deve participar da construção da estratégia nacional de negociação. Essa prática é comum nas principais economias do mundo e precisa ser fortalecida também no Brasil.
O episódio do tarifaço deve servir como um alerta para que o país modernize sua forma de negociar. Mais do que responder a uma medida específica, precisamos construir uma política permanente de comércio exterior, baseada em planejamento, coordenação entre governo e iniciativa privada e defesa consistente dos interesses nacionais.
Num ambiente internacional cada vez mais competitivo, negociações comerciais deixaram de ser apenas diplomáticas. Tornaram-se estratégicas, econômicas e empresariais. O Brasil será mais forte quando conseguir colocar na mesma mesa seus diplomatas, empresários e especialistas, todos trabalhando com um único objetivo: defender o interesse nacional.
José Ricardo Roriz Coelho
Presidente do Conselho da ABIPLAST