Entrevista ONIP – Giselle Hipolito, Estrategista de Negócios Internacionais
Oportunidades de parcerias e negócios em países da África e da América do Sul
A internacionalização em petróleo e gás expande a mentalidade comercial e potencializa a competitividade da indústria nacional, afirma Giselle Hipolito, Estrategista de Negócios Internacionais. Para Giselle, a ampliação da cadeia de fornecedores brasileira no mercado global de petróleo e gás é um vetor de crescimento e amadurecimento estratégico para o empresariado: “Ao cruzar fronteiras, o empresário mitiga riscos através da diversificação de portfólio e passa a integrar uma cadeia global de valor altamente dinâmica”, explica, em entrevista exclusiva para o site da ONIP. Nela, Giselle fala sobre a importância de uma estratégia de internacionalização e faz um detalhamento do estudo sobre as potencialidades de parcerias e negócios com países da África e da América do Sul, apresentado na última reunião do Comitê de Empresas da Organização.
“O Brasil levou décadas para consolidar o padrão tecnológico e de conteúdo local do pré-sal. Agora, nosso papel é apoiar os fornecedores técnicos, engenharia e logística portuária a somarem forças com o mercado global, posicionando-os com as principais operadoras (IOCs) e integradores Tier 1 nesses mercados”, avalia.
Durante a última reunião do Comitê de Empresas da ONIP, você apresentou um estudo das potencialidades de parcerias e negócios com países da África e da América do Sul. O que motivou esse estudo?
A principal motivação foi mapear de forma empírica e quantitativa janelas de oportunidade globais que guardam sinergia com a indústria brasileira. Identificamos que a África Subsariana e a Margem Equatorial da América do Sul atravessam um momento de transição regulatória, leilões de blocos e expansão de infraestrutura upstream e brownfield. Este estudo nasceu para decodificar dados macroeconômicos em rotas de negócios.
A participação da indústria brasileira é importante para a estratégia de internacionalização? Por que?
A participação da indústria é um dos pilares de sustentação para consolidar o Brasil como um hub global de soluções energéticas. Para estimular o empresário rumo à prontidão exportadora, apresentamos um panorama comparativo: o PIB do Brasil se posiciona hoje na casa dos US$ 2,2 trilhões, enquanto os ecossistemas estudados trazem dinâmicas comerciais próprias e complementares. Angola registra um PIB nominal estabilizado em cerca de US$ 113 bilhões, com crescimento de 4,4% impulsionado por hidrocarbonetos; a África do Sul lidera regionalmente com US$ 380 bilhões; e Guiana (US$ 21 bilhões) e Suriname (US$ 4 bilhões) apresentam um crescimento vertical acelerado por recentes descobertas de ativos. Diante desse cenário, a internacionalização atua a favor do fortalecimento das empresas, agregando valor e impulsionando a competitividade global da indústria nacional. No Brasil, o empresário que decide ingressar no mercado internacional se posiciona à frente do mercado em termos de visão, oportunidade e estratégia de expansão. Ao interagir com atores internacionais, o fornecedor de bens e serviços refina sua eficiência, absorve novas tecnologias e consolida o país na vanguarda do setor, muitas vezes trocando e expandindo conhecimento em relação a inteligência de engenharia, tecnologia agregada e inovação.
Quais os benefícios dessa presença internacional?
Os benefícios estão na reputação corporativa e no crescimento de longo prazo das empresas. O primeiro grande ganho é a diversificação de portfólio por meio do acesso direto a contratos junto a operadoras e concessionárias internacionais. Além disso, a inserção nessas praças fomenta uma evolução constante nos padrões de governança e eficiência de processos, o que pode posicionar as empresas brasileiras de forma destacada nas listas globais de fornecedores.
Sob a ótica de cooperação institucional, o maior benefício é o estabelecimento de relações bilaterais de ganho mútuo. Ao nos posicionarmos como parceiros estratégicos no codesenvolvimento do conteúdo local de nações vizinhas e parceiras, criamos um ambiente propício para que o Brasil forneça inteligência técnica, equipamentos navais homologados e serviços especializados, o que pode gerar parcerias duradouras e segurança jurídica.
Quais as potencialidades de parcerias e negócios com os países da África?
Angola apresenta uma carteira dinâmica superior a US$ 60 bilhões em investimentos futuros direcionados à revitalização de campos maduros (brownfield), refino e adensamento tecnológico. A grande potencialidade para as empresas brasileiras reside na afinidade geológica com o pré-sal e na oportunidade de cooperação com o Regime de Conteúdo Local angolano, onde fornecedores nacionais de média complexidade e suporte logístico possuem vantagens competitivas devido ao idioma e ao histórico diplomático de cooperação.
Por sua vez, a África do Sul desenha-se como uma vitrine de alto nível para governança, infraestrutura elétrica e automação industrial, podendo abrir espaços para que fabricantes brasileiros de equipamentos de automação e sensores atuem em projetos de infraestrutura de larga escala. São praças que demandam parcerias corporativas e acordos de financiamento robustos, capazes de absorver soluções integradas da nossa cadeia.
E nos países da América do Sul?
Na América do Sul, o foco está na fronteira exploratória mais dinâmica do planeta na atualidade: a região da Guiana e do Suriname. Aqui o ambiente de mercado convida a uma inserção comercial e operacional ágil, voltada ao desenvolvimento prático de cadeias de suprimentos para projetos upstream em ritmo de crescimento acelerado. A Guiana, impulsionada pelo Bloco Stabroek, transformou-se em um polo massivo de contratações onde as operadoras globais demandam a agilidade que a proximidade geográfica do Brasil pode atender com maestria.
As potencialidades de negócios envolvem o fornecimento de consumíveis navais homologados, engenharia civil especializada, suprimentos industriais e logística portuária. A oportunidade está em posicionar os fabricantes brasileiros nas rodadas de negociação de cadeia de suprimentos junto a grandes EPCs e integradores navais, com o objetivo de capturar contratos abertos de curto e médio prazo na margem equatorial.
Qual a estratégia a partir de agora?
A estratégia é executiva, focada na ação direta e no acompanhamento técnico das empresas associadas interessadas em internacionalizar. Apresentamos possibilidades de participações em missões comerciais e agendas de articulação institucional para as próximas janelas internacionais. O próximo passo prático é entender a disponibilidade e prontidão exportadora para a participação nas feiras Angola Oil & Gas 2026 em setembro e African Energy Week na África do Sul em outubro, que contam com rodadas exclusivas de matchmaking B2B e agendas governamentais com agências reguladoras.
Simultaneamente, estamos estreitando os canais diplomáticos com o Setor Comercial (SECOM) da Embaixada do Brasil em Georgetown para preparar o terreno operacional visando a Guyana Energy Conference & Supply Chain Expo 2027. Nosso papel é facilitar as interlocuções entre o empresário brasileiro e atores relevantes dos países em questão com o objetivo de entrar nesses mercados com inteligência comercial e estratégia para atingir os melhores resultados.