Editorial ONIP – Março 2026

O debate sobre o descomissionamento offshore ganhou ainda mais relevância ao longo do mês de março, quando a ONIP participou de nada menos que três encontros dedicados ao tema – em Macaé, Vitória e Rio de Janeiro – evidenciando a convergência crescente entre operadoras, fornecedores, reguladores e especialistas em torno dessa nova frente industrial. As discussões reforçaram a percepção de que o descomissionamento deixou de ser apenas a etapa final dos projetos de exploração e produção para se consolidar como um mercado estruturante, com investimentos estimados em R$ 158,58 bilhões nos próximos anos, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

A Petrobras sozinha prevê investimentos da ordem de R$ 53 bilhões com o abandono de cerca de 500 poços e a retirada de 18 plataformas a partir de 2026 e 50 após 2031, sinalizando a dimensão da demanda futura e a necessidade de planejamento integrado entre os diversos elos da cadeia. Em paralelo, o cenário global de escassez de sondas e mão de obra especializada tende a elevar custos e pressionar cronogramas, reforçando a importância da antecipação e do uso coordenado de dados técnicos para otimizar recursos e preservar a viabilidade econômica dos projetos.

Mais do que números, esse contexto abre uma ampla avenida de oportunidades para a cadeia de fornecimento. As atividades associadas ao descomissionamento exigem competências multidisciplinares – engenharia, logística, gestão ambiental, reciclagem, serviços especializados – e apontam para uma crescente demanda por capacitação de pessoas. Trata-se de um movimento que poderá mobilizar diferentes segmentos industriais e estimular o desenvolvimento de novas competências no país.

Outro aspecto relevante é que essas oportunidades não se restringem às plataformas localizadas no Brasil. Elas se estendem também a embarcações e a ativos offshore em operação tanto no país quanto no exterior, ampliando o horizonte de atuação para empresas brasileiras que se posicionarem de forma competitiva. Nesse sentido, a estrutura industrial e logística existente representa uma base importante, ainda que persistam desafios regulatórios e tributários que podem influenciar a internalização das atividades de desmontagem e reciclagem.

No plano regional, observa-se um movimento concreto de estruturação de polos de descomissionamento. O Espírito Santo vem se posicionando como um hub para essa atividade, o que deverá demandar investimentos em infraestrutura, incluindo a adequação dos acessos aos portos e a adaptação de estruturas portuárias existentes para receber operações de maior porte. No Nordeste, especialmente nos estados de Sergipe, Rio Grande do Norte e Ceará, as perspectivas se mostram mais tangíveis, considerando a existência na região de plataformas previstas para descomissionamento até 2030, com investimentos estimados em aproximadamente R$ 14 bilhões.

No Rio de Janeiro, a inauguração da pedra fundamental do terminal de Barra do Furado sinaliza mais um passo relevante na consolidação da infraestrutura voltada ao descomissionamento. O projeto amplia a capacidade logística regional e, no futuro, poderá atuar de forma integrada com o Porto do Açu, que já dispõe de estrutura preparada para esse tipo de operação. Essa complementaridade tende a fortalecer o estado como um dos principais polos para atividades de desmantelamento e reciclagem offshore no país.

Esse cenário abre espaço para uma variedade de oportunidades ao longo da cadeia produtiva, abrangendo serviços técnicos especializados, intervenção e reparo de válvulas industriais, pintura industrial e a adoção de modelos de contratação em formato de consórcio, como o EPRD (Engenharia, Preparação, Recolhimento e Destinação), que tendem a integrar diferentes competências. Soma-se a isso o potencial associado à reciclagem e ao reaproveitamento de materiais, alinhado aos princípios da economia circular, com capacidade de transformar ativos em fim de vida em novas cadeias de valor.

Nesse contexto, a ONIP foi convidada a integrar o Grupo de Trabalho de Descomissionamento no âmbito do Fórum de Economia Circular, iniciativa coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), reforçando a atuação institucional da entidade na articulação de soluções que permitam à indústria brasileira se preparar para esse novo ciclo.

Marta Franco Lahtermaher
Diretora Geral
Organização Nacional da Indústria do Petróleo – ONIP