Entrevista ONIP – Allan Kardec Duailibe Barros Filho, presidente da Gasmar, Companhia Maranhense de Gás

“Debate sobre o fracking é fruto de demonização ideológica”

Para Allan Kardec Duailibe Barros Filho, presidente da Gasmar, Companhia Maranhense de Gás, o bloqueio regulatório e o debate público sobre o fracking são frutos de desconhecimento e de uma “demonização ideológica” motivada por interesses geopolíticos externos. Em entrevista exclusiva para o site da ONIP, ele defende pautar a regulação no pragmatismo econômico e em evidências científicas.

“O debate recente em torno da Margem Equatorial, por exemplo, teve um papel fundamental, de descortinar um véu que estava por cima da vergonha de defender os combustíveis fósseis e retirar o constrangimento injustificado de se defender a segurança energética do país”, avalia.

Ele aponta como incoerente o plano do Brasil de construir infraestrutura para importar gás argentino extraído por fracking enquanto proíbe o uso da mesma tecnologia em seu próprio solo.

“Ao optar por financiar a produção e os empregos do país vizinho, o Brasil assume um risco duplo: compromete sua segurança energética ao depender de terceiros e perde a oportunidade de baratear custos operacionais para sua própria indústria”, observa. “Não podemos continuar importando soluções que já temos a capacidade de produzir em nosso subsolo”, afirma.

O Brasil utiliza o fraturamento hidráulico em reservatórios convencionais há seis décadas sem registro de acidentes. Por que esse histórico técnico ainda não gera confiança regulatória e o que falta para superar esse entrave no debate público?

O principal entrave no debate público sobre o fracking, a exemplo de outras pautas do setor, é que a discussão ficou restrita a nichos e contaminada por uma demonização ideológica dos combustíveis fósseis. Como venho defendendo em meus artigos, essa estigmatização não é casual, ela responde a interesses geopolíticos externos que não coincidem com os interesses ou necessidades reais do Brasil.

O debate recente em torno da Margem Equatorial, por exemplo, teve um papel fundamental, de descortinar um véu que estava por cima da vergonha de defender os combustíveis fósseis e retirar o constrangimento injustificado de se defender a segurança energética do país. O Brasil precisa enfrentar a narrativa geopolítica externa e pautar a regulação no pragmatismo econômico e em evidências científicas.

Como o senhor avalia o arcabouço brasileiro em relação aos países que já avançaram e quais ajustes são prioritários para destravar o setor?

O Brasil apresenta total maturidade técnica, científica e operacional para o fraturamento hidráulico. A proibição atual revela uma incoerência regulatória gritante: permite-se o fraturamento em poços verticais, mas impede-se a mesma técnica em poços horizontais. Trata-se de uma restrição sem qualquer fundamento técnico, fruto do desconhecimento de quem elabora as regras.

O país está pronto para avançar. Um exemplo concreto é o Maranhão, que já demonstrou protagonismo e capacidade institucional ao autorizar a atividade no passado e está plenamente preparado para repetir a operação.

O gás não convencional é visto como chave para a autossuficiência e a redução de custos de insumos industriais no Brasil. Como a Gasmar avalia o impacto dessa produção na competitividade da indústria maranhense e nacional?

O caminho para baratear o gás e dar competitividade à indústria é elementar: aumentá-lo em volume. Não adianta apenas alterar normas e regulamentos no papel, pois mudanças regulatórias não geram novas moléculas de gás. É preciso destravar a produção de fato. A lei da oferta e da procura é soberana em qualquer economia: maior oferta resulta em preços menores.

Empresas com forte presença na região, como a Eneva, apostam no gás não convencional justamente por essa razão factual, comprovada em todos os países que adotaram a tecnologia. Para o Maranhão e para o Brasil, garantir essa autossuficiência significa baratear custos essenciais – como os de fertilizantes e da indústria de base –, impulsionar a atração de investimentos e transformar o potencial em desenvolvimento econômico real.

Diante dos resultados expressivos da Argentina com o fraturamento hidráulico, que lições o Brasil deve extrair e qual é o risco de optar pela importação do gás vizinho em vez de explorar suas próprias reservas?

A experiência da Argentina oferece uma lição inequívoca de pragmatismo e desenvolvimento. É um contra senso profundo o Brasil planejar a construção de infraestrutura para importar gás argentino produzido por fraturamento hidráulico enquanto proíbe ou adia o uso da mesmíssima tecnologia em seu próprio território.

Ao optar por financiar a produção e os empregos do país vizinho, o Brasil assume um risco duplo: compromete sua segurança energética ao depender de terceiros e perde a oportunidade de baratear custos operacionais para sua própria indústria. Não podemos continuar importando soluções que já temos a capacidade de produzir em nosso subsolo.

A geração de empregos, o conteúdo local e o aumento da arrecadação seriam trunfos do fracking regulamentado? De que forma esses impactos podem se materializar no Maranhão e no interior do país, e qual o papel da regulação nesse processo?

A relação é direta: onde há produção e investimento, há geração imediata de empregos qualificados e movimentação da economia local. No Maranhão e no interior do Brasil, o desenvolvimento dos recursos não convencionais abririam um vetor de industrialização sem precedentes, interiorizando a renda e fortalecendo a cadeia de fornecedores regionais.

A infraestrutura maranhense é um ativo estratégico para essa transformação. O Porto do Itaqui, por exemplo, consolida a posição do estado como um hub logístico natural, pronto não apenas para atender ao mercado interno, mas também para escoar e exportar o gás produzido no solo maranhense. Uma regulação clara e estável é o gatilho que falta para destravar esses investimentos, transformar o potencial do subsolo em arrecadação e consolidar a autonomia energética da região.