Editorial ONIP – Agosto 2026

O setor brasileiro de petróleo e gás atravessa um período de grandes oportunidades, impulsionado pela perspectiva de novos investimentos em exploração, produção, infraestrutura e descomissionamento. Entretanto, para a ONIP e para a cadeia fornecedora, esse cenário reforça a preocupação central de que a expansão da atividade se traduza em desenvolvimento industrial, inovação, geração de empregos qualificados e fortalecimento das empresas instaladas no país.

Essa discussão ganha especial relevância diante dos investimentos previstos para os FPSOs de SEAP I e SEAP II. Pela dimensão e pela diversidade das demandas que esses empreendimentos deverão mobilizar, abre-se uma oportunidade estratégica para ampliar a participação da cadeia produtiva nacional. No entanto, esse resultado depende de decisões tomadas ao longo das etapas de engenharia, contratação e compras. Ainda hoje, não são raros os casos em que fornecedores brasileiros, plenamente capacitados para atender aos projetos, veem seus produtos substituídos por equipamentos importados, especialmente de países asiáticos, evidenciando que a competitividade da indústria nacional, por si só, nem sempre é suficiente para assegurar sua participação.

O principal desafio está na distância entre o conteúdo local comprometido e aquele efetivamente realizado, bem como na limitada capacidade do modelo atual de influenciar decisões enquanto os investimentos ainda estão em curso. Os mecanismos existentes cumprem uma importante função declaratória e fiscalizatória, mas precisam ser complementados por instrumentos de gestão.

A maior integração entre governo, agência reguladora, operadoras, entidades representativas e fornecedores pode contribuir para identificar oportunidades, corrigir desvios e ampliar a participação da indústria brasileira nos segmentos de maior valor tecnológico. Mais do que aferir quanto foi contratado no país, é necessário compreender quais capacidades produtivas e industriais foram efetivamente fortalecidas.

Esse debate está relacionado aos diferentes temas reunidos nesta edição da Conexão ONIP. A entrevista com Luciana Uchôa, presidente do Conselho da Amcham do Rio de Janeiro, aborda a importância da retomada do diálogo entre Brasil e Estados Unidos e da construção de uma agenda bilateral voltada ao comércio, aos investimentos e à cooperação econômica. Em um ambiente internacional mais competitivo, a inserção externa das empresas brasileiras e a defesa de seus interesses exigem coordenação entre governo, setor empresarial e instituições representativas.

A presença da ONIP no Sergipe Oil & Gas 2026, por sua vez, permitiu acompanhar de perto as expectativas em torno dos projetos onshore e offshore no estado, especialmente em águas profundas, além da expansão da infraestrutura de gás natural. O desenvolvimento dessas novas fronteiras reforça a importância de preparar a cadeia fornecedora para participar dos investimentos desde suas etapas iniciais.

Por fim, o artigo do nosso conselheiro, José Ricardo Roriz, sobre o tarifaço americano e seus efeitos para a política comercial brasileira chama atenção para uma realidade cada vez mais presente: as decisões comerciais e industriais estão diretamente ligadas à estratégia econômica dos países. O Brasil precisa fortalecer sua capacidade de negociação, defender seus interesses e criar condições para que suas empresas concorram em bases mais equilibradas, tanto no mercado interno quanto no exterior.

Os assuntos desta edição convergem, portanto, para um mesmo ponto. Os investimentos previstos para os próximos anos representam uma oportunidade concreta, mas seu impacto sobre a indústria brasileira dependerá da qualidade da governança, do planejamento e da coordenação entre os diferentes atores.

Boa leitura!

Marta Franco Lahtermaher
Diretora Geral
Organização Nacional da Indústria do Petróleo – ONIP