Editorial ONIP – Fevereiro 2025
O atual conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã recoloca a geopolítica da energia no centro das decisões globais e reforça um cenário estrutural em que as confrontações geoeconômicas figuram hoje entre os principais riscos mundiais. Tensões no Oriente Médio, especialmente diante da relevância do Estreito de Ormuz, podem gerar impactos relevantes nos preços do petróleo, ampliando a volatilidade de um mercado já pressionado por sanções, rearranjos comerciais e novos polos de produção.
Ao mesmo tempo, reafirma o dado objetivo de que o petróleo e o gás natural permanecem pilares da matriz energética global e continuarão exercendo papel central nas próximas décadas. Diante dessa conjuntura, o Brasil ocupa posição singular. Com o pré-sal consolidado como um dos polos mais competitivos do mundo e com potencial ainda expressivo em áreas inexploradas, o país precisa olhar estrategicamente para suas reservas como instrumento de soberania energética, estabilidade macroeconômica e fortalecimento da indústria nacional. Em um mundo fragmentado e sujeito a choques recorrentes, dispor de recursos energéticos próprios é um diferencial estratégico.
É nesse ambiente que a ONIP inicia suas atividades neste ano, com um marco institucional relevante: a instalação do Comitê de Empresas, em encontro realizado no dia 26 de fevereiro, no Rio de Janeiro. A criação do Comitê consolida um fórum permanente de articulação estratégica da cadeia fornecedora nacional e uma oportunidade para a priorização dos temas estruturantes para a competitividade da indústria brasileira. Com encaminhamentos que pautarão o Comitê na consolidação de propostas a serem levadas aos interlocutores governamentais e institucionais, fortalecendo a atuação coordenada da cadeia produtiva, foram levantadas questões como:
a) Reformulação conceitual do conteúdo local, evoluindo para uma visão de “conteúdo local para o mundo”, a exemplo de outros países;
b) Recuperação da engenharia nacional, essencial para projetos de alta complexidade;
c) Busca por isonomia regulatória e defesa comercial;
d) Aumento da presença internacional das empresas fornecedoras brasileiras.
Nesta edição da newsletter, destaco a entrevista exclusiva com Júlia Cruz, secretária de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do MDIC, que reafirma a economia circular como eixo estruturante da política industrial brasileira. Entre os pontos abordados, está o entendimento do descomissionamento de ativos como catalisador da economia circular e da indústria do aço verde, transformando estruturas no fim da vida útil em insumos estratégicos que ampliam a competitividade internacional do Brasil.
A atual configuração geopolítica – marcada por tensões no Oriente Médio, reconfiguração de fluxos energéticos e busca por segurança de suprimento – reposiciona países detentores de reservas estratégicas no centro das decisões globais. Nesse contexto, a combinação entre abundância de recursos, política industrial ativa e transição para modelos produtivos de menor carbono coloca o Brasil diante de uma oportunidade singular.
Para que esse potencial se converta em protagonismo efetivo, será fundamental evitar dispersões e debates improdutivos, priorizando eficiência, coordenação institucional e foco em resultados. A atuação alinhada entre governo, reguladores, setor produtivo e entidades representativas permitirá transformar essa janela histórica em ações estruturantes, fortalecendo a cadeia nacional e ampliando a competitividade brasileira no novo ciclo energético global.
Marta Franco Lahtermaher
Diretora Geral
Organização Nacional da Indústria do Petróleo – ONIP