Entrevista ONIP – Julia Cruz, secretária de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do MDIC
“Brasil pode se posicionar como hub de descomissionamento”
A economia circular hoje é tratada como uma agenda estruturante da política industrial brasileira, afirma Julia Cruz, secretária de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Em entrevista exclusiva para o site da ONIP, Julia Cruz avalia a o atual estágio de maturidade desse modelo no país, elenca os principais ganhos de competitividade que a adoção de práticas circulares traz para a indústria nacional e explica porque o MDIC enxerga o descomissionamento como um catalisador para a economia circular e a indústria do aço verde no Brasil:
“A abordagem é integrar essa cadeia às prioridades mais amplas da política industrial, de forma a criar um ambiente favorável ao desenvolvimento de capacidades nacionais e à inserção qualificada do Brasil no mercado internacional de serviços avançados de descomissionamento e reciclagem de ativos”, destaca.
A economia circular tem ganhado tração na estratégia industrial brasileira? Como o MDIC avalia o atual estágio de maturidade desse modelo no país e quais setores da indústria hoje lideram essa transição, servindo de benchmark para os demais?
Sim. A economia circular hoje é tratada como uma agenda estruturante da política industrial brasileira. A Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC), regulamentada por decreto, e o Plano Nacional de Economia Circular (PLANEC 2025-2034) a consolidam como eixo transversal da neoindustrialização, articulada à Nova Indústria Brasil (NIB) e à agenda de descarbonização.
Do ponto de vista de maturidade, pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que 85% das indústrias consultadas já desenvolvem pelo menos uma prática de economia circular e que 68% das empresas que adotam essas práticas reconhecem ganhos na redução de emissões de gases de efeito estufa e no combate às mudanças climáticas. O que indica que não se trata mais de um tema de nicho, mas de uma tendência em consolidação.
Por outro lado, o próprio PLANEC prevê, como ação priorizada, a realização de um diagnóstico nacional sobre o grau de adoção da economia circular pelos setores produtivos, justamente para termos um retrato comparável de maturidade por cadeia produtiva. Esse diagnóstico vai nos permitir dizer, com base em evidências, quais setores estão mais avançados e onde é preciso acelerar.
Enquanto esse diagnóstico sistêmico é construído, o que observamos, inclusive pelos debates no Fórum Nacional de Economia Circular, é que alguns segmentos já despontam como referência: cadeias com logística reversa mais consolidada (embalagens plásticas, setores intensivos em reciclagem de metais e vidro)
Portanto, há tração real, mas também uma agenda de aprofundamento e medição mais fina, que está em curso.
Para além da sustentabilidade ambiental, quais são os principais ganhos de competitividade que a adoção de práticas circulares traz para a indústria nacional no cenário atual?
A economia circular é uma agenda de desenvolvimento econômico em que o setor produtivo é protagonista. O modelo circular traz benefícios ambientais, mas também gera ganhos econômicos muito concretos. Primeiro, há o aumento de eficiência no uso de recursos: reduzir perdas, reaproveitar insumos, remanufaturar componentes e usar mais matéria-prima reciclada significam menos dependência de matérias-primas virgens, menor exposição à volatilidade de preços internacionais e redução de custos operacionais. A própria pesquisa da CNI mostra que redução de custos e estímulo à inovação estão entre os benefícios mais percebidos pelas empresas que adotam práticas circulares.
Segundo, a circularidade melhora o posicionamento competitivo do produto brasileiro em mercados que já começam a exigir menor pegada de carbono e maior conteúdo reciclado, inclusive no contexto de mecanismos como o ajuste de carbono em fronteira (CBAM) na União Europeia. Cadeias que internalizam sucata metálica, por exemplo, reduzem a intensidade de carbono do aço, o que dialoga diretamente com requisitos de compradores globais.
Terceiro, há um ganho claro em acesso a financiamento e investimentos. Projetos alinhados à economia circular têm crescido na carteira de bancos públicos e privados e em instrumentos de blended finance. Além disso, cadeias como descomissionamento offshore geram insumos estratégicos (sucata de alta qualidade) que aumentam a resiliência da indústria nacional e reduzem riscos geopolíticos de suprimento.
Por fim, a circularidade é uma agenda de inovação e produtividade: ela exige novos modelos de negócio, digitalização (rastreabilidade, inteligência de dados) e redesenho de produtos. Isso puxa investimentos em tecnologia, automação e qualificação de mão de obra, alinhando a indústria brasileira a padrões de “indústria 4.0” com menor intensidade material.
Considerando as missões da Nova Indústria Brasil, quais são as janelas de oportunidade mais promissoras para a economia circular hoje?
Considerando as missões da Nova Indústria Brasil, a economia circular se consolida como instrumento de fortalecimento de cadeias estratégicas, redução de vulnerabilidades externas e avanço da descarbonização industrial. O descomissionamento de plataformas offshore e o desmantelamento de embarcações representam uma das frentes mais promissoras, ao transformar ativos em fim de vida útil em insumos estratégicos, especialmente sucata metálica de alta qualidade. Ao ampliar a oferta doméstica de material secundário, o Brasil fortalece sua siderurgia, reduz a intensidade de carbono do aço e aumenta sua competitividade internacional.
Ao investir na modernização de estaleiros, na adequação ambiental das instalações e na capacitação tecnológica para operações seguras e rastreáveis, o país pode se posicionar como fornecedor de serviços industriais avançados no mercado global. O desmantelamento e o descomissionamento passam a constituir uma cadeia de engenharia, logística, certificação e processamento de alto valor agregado, com geração de empregos qualificados, retenção de valor no território nacional e inserção internacional mais sofisticada.
Paralelamente, outra frente promissora é a recuperação de minerais críticos a partir de resíduos eletroeletrônicos, que fortalece a segurança de suprimentos em um contexto de transição energética e digital. Ao desenvolver capacidades nacionais de manufatura reversa e reaproveitamento de materiais estratégicos, o Brasil reduz dependências externas e adensa suas cadeias produtivas. Nesse contexto, a economia circular se afirma como uma agenda econômica estruturante da política industrial brasileira, e as janelas mais promissoras hoje estão justamente nas interseções entre descarbonização, segurança de suprimentos, transformação digital e adensamento de cadeias produtivas.
Quais são, hoje, os principais gargalos que impedem uma escala maior da economia circular no Brasil?
Nós identificamos quatro grandes grupos de gargalos. O primeiro são as barreiras regulatórias: normas que ainda veem o resíduo apenas como passivo e não como insumo, insegurança em temas como classificação de resíduos, operações de reuso, remanufatura, dentre outras. No caso específico de cadeias como descomissionamento offshore e desmantelamento de embarcações, há desafios adicionais em torno de licenciamento integrado, movimentação transfronteiriça e alinhamento às convenções de Basileia e de Hong Kong.
O segundo grupo são as barreiras econômicas e tributárias. Em vários casos, o tratamento tributário ainda desincentiva o uso de insumos reciclados em relação à matéria-prima virgem. Há também dificuldades de acesso a crédito, sobretudo para pequenas e médias empresas da cadeia da reciclagem, que são intensivas em CAPEX e em tecnologia, e enfrentam percepção de maior risco.
O terceiro são as lacunas de infraestrutura e tecnologia: ausência de instalações adequadas em escala nacional para triagem avançada, preparação de sucata com qualidade compatível com as exigências da indústria, destinação de resíduos perigosos específicos, além da necessidade de modernização de plantas para operar com padrões internacionais de segurança e sustentabilidade.
Por fim, há um desafio de capacidades e informação. Ainda existe assimetria de conhecimento sobre modelos de negócios circulares, especialmente entre micro e pequenas empresas; falta padronização de dados e indicadores, o que dificulta medir ganhos econômicos e ambientais; e há necessidade de formar profissionais qualificados para operar tecnologias de triagem, manufatura reversa e rastreabilidade.
O PLANEC e o Fórum Nacional de Economia Circular foram desenhados justamente para atacar esses gargalos, combinando melhorias regulatórias, instrumentos econômicos, fortalecimento de capacidades e, como já mencionei, um diagnóstico nacional da adoção da economia circular para orientar as prioridades setoriais.
O setor de óleo e gás enfrenta um volume crescente de plataformas offshore chegando ao fim de sua vida útil. Como o MDIC enxerga o descomissionamento como um catalisador para a economia circular e a indústria do aço verde no Brasil? Existe algum plano de incentivo específico para essa cadeia de reciclagem de ativos?
O aumento do número de plataformas offshore e embarcações que chegam ao fim de sua vida útil representa uma oportunidade estratégica para o Brasil desenvolver uma cadeia de serviços industriais de alto valor agregado. O descomissionamento pode ser estruturado como atividade sofisticada, envolvendo engenharia, logística, desmontagem especializada, gestão ambiental e certificação técnica, permitindo adensar a base produtiva nacional e internalizar etapas hoje realizadas no exterior.
Além disso, a recuperação e o processamento de sucata metálica de alta qualidade fortalecem a siderurgia nacional e ampliam a produção de aço de menor intensidade de carbono, contribuindo para o posicionamento do Brasil no mercado de aço verde.
Com modernização de estaleiros, qualificação profissional e alinhamento a padrões internacionais, o país pode se posicionar como hub regional e fornecedor global de serviços avançados, exportando engenharia e tecnologia e ampliando sua inserção competitiva em segmentos intensivos em conhecimento e capital.
Em relação a incentivos específicos, a atuação do MDIC tem se estruturado em frentes complementares voltadas ao fortalecimento das condições institucionais e industriais para o desenvolvimento dessa cadeia.
No campo regulatório, o Ministério acompanha e oferece subsídios técnicos às discussões legislativas relacionadas à reciclagem de embarcações, inclusive no âmbito do Projeto de Lei nº 1.584/2021, que busca alinhar o país às melhores práticas internacionais, como as previstas na Convenção de Hong Kong.
No âmbito econômico-industrial, o MDIC tem promovido articulações com instituições financeiras públicas e agências de fomento para avaliar instrumentos existentes que possam apoiar investimentos em modernização tecnológica, adequação ambiental e aumento de competitividade em setores associados à economia circular. A abordagem é integrar essa cadeia às prioridades mais amplas da política industrial, de forma a criar um ambiente favorável ao desenvolvimento de capacidades nacionais e à inserção qualificada do Brasil no mercado internacional de serviços avançados de descomissionamento e reciclagem de ativos.
*créditos Foto: Júlio César Silva/MDIC